Balaio de Maio
O início de uma temporada diferente
No meu trabalho, é necessário saber lidar com vários assuntos ao mesmo tempo e transitar bem entre eles, com agilidade. E, mesmo sendo muito dinâmica, queria conseguir separar melhor o trabalho e a vida, uma vez que senti que estava mantendo o ritmo após o expediente, correndo com meus hobbies e até apressando minha fala (que já é bem acelerada) ao contar algo para alguém, com medo de perder o interesse do outro e sentir que estou gastando o tempo dele. Em meio a isso, para que não perdessem o interesse aqui também, estava preocupada demais em assistir muitas coisas, exatamente para poder colocá-las aqui, o que me impedia de encarar livros maiores ou simplesmente não assistir um filme e fazer outra coisa.
E, como eu relatei no último mês, meu desejo era retomar a tranquilidade e a leveza que adquiri durante as férias, mesmo que num contexto de rotina normal de trabalho. E fico feliz em dizer que consegui. Mesmo trabalhando muito, consegui fazer as coisas com mais calma, uma de cada vez e me ajudou muito ter feito uma imersão em livros longos que me ajudaram nessa calibração do ritmo de vida (dos quais falarei no próximo mês). Como resultado disso, acabei lendo menos livros e assistindo menos filmes e séries, mas o prazer de mergulhar em um livro mais longo foi maravilhoso e quero continuar fazendo isso nos próximos meses.
Eis o que coube neste balaio:
O que eu li:
A Filha Única - Guadalupe Nettel (Todavia)
Esse livro apareceu pra mim como sugestão no Prime Reading e sem saber muito, peguei pra ler. A protagonista do livro não quer ter filhos e desde sempre compartilhou esse pensamento com sua melhor amiga. Porém, agora essa amiga decide que quer ter um filho e isso espanta a narradora do livro, principalmente após as diversas dificuldades que essa amiga precisará enfrentar para ter essa criança. Gostei demais do livro. Me identifiquei muito com a forma de pensar da narradora e achei muito interessantes as relações que ela fez com a maternidade e o cuidado. Ainda quero escrever mais sobre essa leitura, então por enquanto fica apenas minha recomendação e o desejo de ler mais livros dessa autora.
Todo mundo tem mãe, Catarina - Carla Guerson (Reformatório)
Mais um que peguei despretensiosamente no Prime Reading, de uma autora brasileira que não conhecia. Escolhi basicamente pelo título e pela capa e inicialmente gostei muito por se tratar de uma narradora criança. Não vou falar muito para não estragar a experiência de leitura, mas no fim não gostei do livro por romantizar um tema que não acho que deve ser romantizado. Nesse caso, fica aqui a minha não recomendação. Mas, ao mesmo tempo, é só minha opinião e cada experiência de leitura é diferente.
O que eu assisti:
Séries
Maid (Netflix)
Essa minissérie de 2021 foi muito elogiada nos últimos anos, mas só assisti ela agora. E me impressionei com como ela foi capaz de despertar tantos sentimentos em mim. Inicialmente senti raiva porque pareceu que tudo só dava errado, sem uma razão aparente. Apenas a tristeza pela tristeza. Mas a partir do segundo episódio, apesar das coisas continuarem dando errado, a construção melhora e os personagens adquirem maior profundidade. Ainda senti raiva, por outros motivos, mas também tristeza, desamparo e por fim, me vi em prantos com a beleza, pela existência de situações tão bonitas de apoio e acolhimento entre mulheres. Me senti desamparada por não poder continuar acompanhando aqueles personagens e suas histórias.
Arrested Development (Netflix)
Como sempre, tenho minha série rapidinha para assistir durante as refeições e essa foi a escolhida da vez. É uma série de 2003 que conta a história da família Bluth, completamente maluca, em que o pai é preso por diversos casos de corrupção em sua empresa, e a família, acostumada a viver no luxo e na riqueza, precisa se adaptar a essa nova realidade. O formato da série é muito divertido, acelerado e ela consegue ficar mais absurda a cada episódio.
DTF St. Louis (HBO Max)
Comecei essa série por estar desamparada com o fim das temporadas de várias outras que acompanho, e por estar assistindo Arrested Development e gostar muito da atuação do Jason Bateman. É sobre dois homens, casados, que se tornam amigos e passam a compartilhar as intimidades de suas vidas matrimoniais monótonas. Um deles comenta sobre um aplicativo (que dá nome à série), em que pessoas casadas entram em busca de experiências sexuais fora do casamento. Uma noite que um deles sai para um suposto encontro no aplicativo, acaba em assassinato e se inicia a investigação do caso. É uma série que vai e volta no tempo e nos fatos e inicialmente com um clima, atuações e diálogos estranhos, mas que espero que haja uma explicação para isso no fim.
As Quatro Estações (Netflix)
Em meio ao meu desamparo de séries, fiquei muito feliz em ver que estreou uma nova temporada dessa série leve e divertida. Os casais seguem com seus problemas matrimoniais enquanto fazem viagens juntos durante as estações do ano. É uma série simples, mas muito boa pra passar o tempo e rir um pouquinho.
Filmes
It’s Never Over, Jeff Buckley
Eu admiro muito o Jeff Buckley desde que fui apresentada à sua versão maravilhosa de Hallelujah, do Leonard Cohen. O documentário conta sua breve história, iniciada com um pai famoso que o abandonou, mas que, ao mesmo tempo, sempre pairou como uma sombra em sua vida, uma vez que era citado em todas as suas entrevistas e constantemente comparado com o filho. Infelizmente, o artista deixou o mundo muito cedo, em um afogamento, com apenas um disco, Grace, que eu tenho a felicidade de ter em casa. Recomendo o disco e o documentário!
A Parede
Após ler o livro de Marlen Haushofer, de 1963, e gostar bastante, fui atrás do filme. Apesar de lindíssimo, por se passar nos alpes austríacos, como costuma acontecer, não conseguiu ser tão bom quanto o livro. Por ser mais acelerado e remover vários momentos da história, não trouxe a parte mais marcante do livro que é a lentidão da passagem dos dias e das estações e a mudança do ritmo de uma vida “normal” para essa nova vida em que o ritmo da natureza deve ser respeitado. Não é uma história em que se busca uma explicação ou uma tentativa de mudar a realidade estabelecida, então não espere algo do tipo caso vá ler ou assistir.
Pequenos prazeres:
Acordar mais cedo e “ouvir” o silêncio da manhã, com uma xícara de café e um bom livro;
Mergulhar em um livro mais longo e me sentir parte daquela história;
Aprender algo novo e, após o receio inicial, perceber que eu dei conta daquilo;
Encontrar boas novas recomendações de livros e reacender um desejo de vida por mais tempo e mais leituras;
Apreciar minha casa e minhas coisas e olhar para elas com carinho;
Sentir uma felicidade imensa com coisas mínimas e simples.
Um desejo:
Ler mais e melhor, sem me preocupar em assistir coisas por conteúdo. Ler por prazer, por amor. Ler. Ler. Ler.
Uma recomendação:
O canal da Malissa me ajudou muito a ajustar meu ritmo de vida, fazer as coisas com mais calma e perceber melhor as coisas ao meu redor. Ela normalmente faz um vídeo por mês, mostrando os lugares por onde passa, sempre de forma calma e silenciosa, com uma beleza na solitude em que ela vive, imersa em diversos livros. Ela também comenta cada leitura que fez e, dessa forma, tem aumentado bastante minha lista de desejos. Estou muito animada para ler vários dos livros que ela indicou!
Maio foi longo. E mesmo assim, parece que deu pra fazer tão pouco. Ou será que eu mudei e era exatamente esse pouco que eu queria? Aqui não faz tão frio quanto em outros lugares do mundo, mas o fato de ele chegar, mesmo que suavemente, nos coloca para pensar no ritmo das coisas e em tudo aquilo que não precisa ser apressado. Uma coisa de cada vez. Com atenção. Com cuidado. Com prazer. Ver, ouvir e sentir. A vida não precisa ser cheia para ser bem vivida. Que continue assim.
Janeiro foi ninho.
Fevereiro foi escuta.
Março foi equilíbrio.
Abril foi balanço.
Maio foi presença.












Se isso tudo que você fez em apenas um mês reflete um ritmo menos acelerado, fico imaginando como seria em alta velocidade...