Balaio de Junho
A vida pode ser muito boa
Junho foi um mês muito gostoso. Tive um dia de aniversário do jeitinho que eu queria: sem trabalho, só fazendo as coisas que eu gosto e recebendo almoço e bolinho da minha família. Foi-se o tempo de festas e de querer ser o centro das atenções. Hoje em dia eu gosto de tirar esse dia pra ser 100% meu. E mesmo não ligando para futebol, o clima de copa e de união entre as pessoas é bem bacana. E se meu desejo na última edição foi “Ler. Ler. Ler”, é com muita felicidade que digo que li, li e li.
Eis o que coube neste balaio:
O que eu li:
A Leste do Éden - John Steinbeck
Quando dizem que esse livro se torna um dos favoritos da vida após a leitura, não é exagero, e eu descobri isso após encarar essas 600 páginas com muita felicidade. Esse estava na minha lista de livros para 2026 e era um dos que eu estava mais animada e que me trouxe a calma e a imersão que eu precisava e falei na edição de Maio. Essa saga familiar acompanha duas famílias, os Trask e os Hamilton, no vale do Salinas, na Califórnia. O livro conta personagens muito marcantes que ficarão na mente do leitor por bastante tempo, como Samuel e Lee. Fiquei com vontade de ler todas as obras do autor e ansiosa para a produção da Netflix que em breve será lançada.
A Carne - Rosa Montero
O livro conta a história de uma mulher de 60 anos, solteira, que diante de uma ópera que ela sabe que seu ex estará presente, decide contratar os serviços de um gigolô de 32 anos para acompanhá-la ao evento. Soledad passa a viver uma aventura com esse homem, enquanto prepara uma exposição sobre a história de escritores que tiveram vidas conturbadas e difíceis, para a Biblioteca Nacional de Madri. É comum observar os mesmos temas presentes em livros da autora e nesse, vemos muitas das questões abordadas em “O perigo de estar lúcida”, livro do qual gostei muito. Eu prefiro os livros de não ficção da autora, mas essa não deixa de ser uma leitura divertida.
O Naufrágio - Vincent Delecroix
O livro é baseado num fato real, de 2021, quando um barco transportando 29 imigrantes da França para o Reino Unido afundou, resultando na morte de 27 pessoas. Foi o incidente com o maior número de vítimas registrado no Canal da Mancha. A partir disso, o autor cria uma história em que a narradora é a oficial da marinha francesa que atendeu aos inúmeros pedidos de ajuda do grupo. É um livro que incomoda, porque estar dentro dos pensamentos dessa mulher que se recusa a assumir a culpa por não ter salvado as 27 pessoas, é inquietante, e nos coloca para pensar qual nossa responsabilidade diante das tragédias a nossa volta. Uma leitura inquietante.
Feito Bestas - Violaine Bérot
O livro é construído a partir de depoimentos dados a investigadores e à medida que eles vão coletando informações das pessoas daquela cidade, o leitor também vai construindo a história dos personagens. Sabemos que uma criança foi encontrada em uma gruta, bem cuidada e saudável e que há um menino na cidade, apelidado de Urso, que desde a infância tem dificuldades de aprendizado e não fala. Mora apenas com sua mãe e tem um dom para cuidar de animais, sendo conhecido na comunidade por tratar e curar animais doentes e, apesar de estranho, é visto com carinho por quem o conhece. Esse livro curtinho me trouxe muitas reflexões, sobre preconceito, sobre o que estabelecemos como certo e errado em uma sociedade e sobre o cuidado e o amor. Um livro diferente e bem interessante.
Morte em Veneza - Thomas Mann
Esse não estava na minha lista de leituras para 2026, mas há algum tempo tenho vontade de ler Thomas Mann, e como ele entrou em domínio público esse ano, muitas publicações surgiram, incluindo essa da Antofágica. Comprei o livro na pré-venda no início do ano e o desejo de pegar para ler agora foi ao vê-lo citado no livro “A Filha Única” da Guadalupe Nettel, que citei na edição de Maio e gostei bastante. A novela acompanha Gustav von Aschenbach, um escritor famoso que viaja para Veneza em busca de novos ares e desenvolve uma fixação pela beleza de um jovem que o deixa desnorteado e faz com que observe o garoto em todas as oportunidades. Tudo isso em meio a uma epidemia que parece cada vez mais próxima. Confesso que esperava bem mais do livro e achei pomposo demais em alguns momentos, tornando a leitura cansativa, mas ainda quero ler outras obras do autor.
Agostino - Alberto Moravia
Fui atrás desse livro após a indicação da Malissa, canal que indiquei aqui no Balaio de Maio. Alberto Moravia é um autor italiano e nessa história conta sobre Agostino, um menino de uma família rica e privilegiada que viaja de férias com sua mãe, viúva, e se incomoda quando ela flerta com homens e passa a, diariamente, fazer um passeio de barco com um deles, levando Agostino. O livro então acompanha essa mudança no olhar do protagonista e sua perda de inocência, ao perceber que não é o único homem na vida de sua mãe, além de passar a enxergar as mulheres com um olhar mais maduro, após conhecer um grupo de meninos que trabalham na cidade e que o ensinam sobre sexualidade. Dá pra analisar muita coisa desse livro, psicanaliticamente falando e eu gostei da história.
So Late in the Day - Claire Keegan
Até o momento, gostei bastante de todas as histórias que li da Claire Keegan e admiro muito o talento irlandês na literatura. Esse livro contém três contos: o primeiro, que dá nome ao livro, reconta a história de um relacionamento que não existe mais no tempo atual e as reflexões do protagonista diante de seu comportamento que levou ao fim desse amor. A segunda acompanha uma escritora em uma casa de um autor famoso, alugada para retiros de escrita, em que tem que lidar com um acadêmico petulante e cheio de críticas. E no terceiro, uma mulher casada decide sair de sua cidade para viver uma aventura com outro homem, que acaba por ser revelar bastante possessivo. O primeiro foi meu preferido, enquanto o terceiro me fez sentir um frio na espinha durante a leitura. Recomendo muito Claire Keegan!
Últimos Contos - Anton Tchékhov
Mais um que estava na minha lista de 10 livros para 2026 e eu queria ler há algum tempo. O livro reúne os últimos contos escritos por Tchékhov antes de sua morte e, como em todas as coletâneas de contos, alguns eu gostei bastante e outros nem tanto. Meu preferido foi “Sobre o amor“, seguido de “Um caso médico“ e “No Barranco“. Confesso que depois de encarar uma obra mais longa como “A Leste do Éden”, ler contos não foi tão prazeroso como antes, uma vez que sinto falta da parte mais lenta da história, do apego aos personagens e de um final menos aberto e repentino. Mas ainda quero ler mais de Tchékhov.
O que eu assisti:
Séries
As Quatro Estações (Netflix)
Falei sobre essa série na última newsletter e finalizei a segunda temporada em junho e foi muito bom ter esses momentos leves e divertidos em Junho. A série acompanha um grupo de amigos em seus encontros ao longo do ano e suas desavenças tanto entre os amigos quanto entre os casais. E tudo isso com paisagens lindíssimas, o que torna tudo mais prazeroso. Recomendo!
Big Mistakes (Netflix)
Escolhi assistir essa série sem ouvir nenhuma recomendação sobre, só pelos atores e o trailer, em um momento em que precisava de uma nova série e assisti ao trailer de várias. A história acompanha uma família composta por uma mãe e seus três filhos, completamente diferentes um do outro e nada próximos, que agora se unem com o falecimento da avó e a candidatura da mãe à prefeitura da cidade. Em meio a isso tudo, os dois irmãos da capa da série, sem querer, se encontram presos em um esquema de crime organizado, do qual são obrigados a participar. É uma série divertidinha e as atuações da mãe e dos dois filhos são as melhores partes.
What happened, Brittany Murphy? (HBO Max)
Após ler em uma newsletter sobre a morte polêmica da atriz em 2009, decidi assistir a esse documentário de duas partes, pois não sabia de toda a história por trás dessa tragédia. A causa da morte foi pneumonia e anemia severa, muito incomuns em uma pessoa da idade da atriz (32 anos) e algo que é notável previamente e completamente tratável. Mas inúmeras teorias surgiram e muito se suspeitou de seu marido, Simon Monjack, que morreu cerca de 5 meses depois. O segundo episódio trata da história bizarra de Simon, dos diversos golpes que aplicou ao longo da vida e recomendo que você assista para entender melhor. É muito triste o que Brittany passou com a opressão de seu marido e a pressão estética tanto dele quanto da indústria cinematográfica, ocasionando essa morte tão precoce e evitável.
Pequenos prazeres:
Deitar na cama e enrolar no cobertor num dia de frio;
Receber de presente algo que eu queria há muito tempo;
Sentir uma felicidade imensa ao terminar um livro e lembrar por que eu amo tanto ler;
Me esforçar no trabalho para encontrar a solução de um problema e sentir satisfação pessoal ao conseguir resolvê-lo;
Ser elogiada no trabalho e sentir o reconhecimento do meu esforço;
Dedicar um tempo para fazer um café especial com calma;
Imaginar que a minha versão criança deve estar bem satisfeita com minha versão adulta.
Um desejo:
Ler livros na língua original, quando possível, ou ao menos ler em inglês o que veio de outras línguas e não chegou ao Brasil. Estou tentando aumentar minha coleção de livros em inglês e esse pequeno espaço na minha estante tem me feito muito feliz. Tem sido muito legal criar esse espaço aqui para falar de desejos e ver que estou priorizando esses desejos.
Uma recomendação:
Leia “A Leste do Éden”. Apenas isso.
Junho foi quente internamente, porque por fora veio o frio. E que delícia viver o frio. O frio permite recolhimento, descanso e um ritmo mais lento. Permite também silêncio e com isso, mais leitura. E era tudo que eu precisava. Um mês em que pude fazer tudo que eu gosto nas horas vagas. Coloquei vários livros na minha lista e me animei com a expectativa de ler todos eles nos próximos meses. Investi em coisas que melhoraram ainda mais meus momentos com meus hobbies. E valeu a pena demais.
Janeiro foi ninho.
Fevereiro foi escuta.
Março foi equilíbrio.
Abril foi balanço.
Maio foi presença.
Junho foi cultivo.























Steinbeck já está na minha lista!
Imaginar que a minha versão criança deve estar bem satisfeita com minha versão adulta"
Muito lindo isso!